Quanto cobrar por dedetização: como montar o preço sem chutar

Você recebe a ligação, pergunta o tamanho do apartamento, lembra que o cara da esquina cobra R$ 250 e fala R$ 230 pra fechar na hora. Fecha. No fim do mês, o caixa não bate. Você trabalhou 22 dias, rodou o carro inteiro, comprou produto, pagou contador — e sobrou menos do que se tivesse ficado parado.

O problema não é o cliente. É que o preço nunca foi calculado. Foi copiado.

Copiar o preço do concorrente é copiar a estrutura de custo dele. Ele pode ter carro quitado, pode aplicar produto mais barato, pode estar quebrando também. Você não sabe. O que dá pra saber é o seu número. E ele sai com papel, caneta e uns 20 minutos.

Os cinco custos que precisam estar dentro de cada orçamento

A maioria só enxerga o produto. O produto costuma ser a menor parte da conta.

1. Produto por serviço, não por frasco

Pare de pensar “o litro custou R$ 180”. Pense no que foi pro chão.

Exemplo: concentrado de R$ 180 o litro, diluição 1:100. Um litro de concentrado vira 100 litros de calda. Cada litro de calda custa R$ 1,80. Se num apartamento você usa 3 litros de calda, foram R$ 5,40 de inseticida líquido.

O gel muda a conta. Bisnaga de 35 g por R$ 90 dá R$ 2,57 por grama. Se você aplicou 8 g, foram R$ 20,56.

Total de produto no serviço: cerca de R$ 26. Faça isso com os produtos que você usa de verdade — todos com registro na ANVISA, com a nota de compra guardada. Anote o custo por grama e por litro de calda numa folha e pendure na garagem. Você vai usar toda semana.

2. A hora do técnico, incluindo a sua

Se você tem funcionário: salário, FGTS, férias, 13º, vale-transporte, EPI. Seu contador fecha esse valor mensal. Digamos R$ 3.800.

Agora o pulo do gato: ele não produz 176 horas por mês. Tem deslocamento perdido, cliente que não estava em casa, chuva, preparo de equipamento. Trabalhe com 120 horas produtivas.

R$ 3.800 ÷ 120 = R$ 32 por hora.

Se você é o técnico, faça igual. Defina quanto você quer receber por mês como salário — não como lucro, como salário — e divida por 120. Quem não se paga na conta acha que está lucrando quando está só sobrevivendo.

3. Deslocamento é custo, não cortesia

Combustível, óleo, pneu, revisão, seguro, depreciação do carro. Some tudo o que o veículo consumiu nos últimos 12 meses, divida pelos quilômetros rodados. Vai dar algo por km. No exemplo, R$ 1,60.

Serviço a 8 km de casa, ida e volta: 16 km × R$ 1,60 = R$ 25,60.

O tempo de deslocamento já está na hora técnica. O carro entra separado.

4. O retorno de garantia já foi vendido

Você promete 90 dias de garantia. Aí volta pra reforçar e trata como prejuízo. Não é. É um custo que você prometeu no ato da venda — logo, ele tinha que estar no preço.

Olhe o histórico. Se a cada 10 apartamentos tratados para barata 2 pedem retorno, sua taxa é 20%.

Custo de um retorno: 1h15 de técnico (R$ 40) + R$ 15 de produto + R$ 25,60 de deslocamento = R$ 80,60.

20% de R$ 80,60 = R$ 16,12 em todo orçamento desse tipo. Todo. Inclusive nos que nunca vão te chamar de volta — são eles que pagam os que chamam.

5. O custo fixo que corre mesmo com a agenda vazia

Licença sanitária, alvará, taxas municipais, responsável técnico, contador, celular, internet, anúncio, seguro, manutenção de pulverizador, uniforme. Some por mês. Se o que é anual, divide por 12.

Digamos R$ 3.000 por mês. Você faz 40 serviços por mês. R$ 75 de custo fixo em cada serviço.

Poucos serviços, custo fixo alto por serviço. É por isso que a dedetizadora vazia precisa cobrar mais caro, não mais barato.

Duas observações sobre o licenciamento: o rito muda de cidade pra cidade, então confirme com a vigilância sanitária do seu município o que entra na sua taxa anual. E o comprovante de execução com os itens do Art. 19 da RDC 622/2022 não é opcional — o tempo de preencher e entregar é parte do serviço e está dentro da sua hora técnica.

A fórmula

Primeiro o custo total:

Custo = produto + (horas × custo/hora) + (km × custo/km) + (taxa de retorno × custo do retorno) + custo fixo rateado

Depois o preço. E aqui está o erro clássico: somar 30% em cima do custo achando que 30% vai sobrar. Não vai. Imposto e lucro incidem sobre o preço de venda, não sobre o custo. A conta certa é divisão:

Preço = Custo ÷ (1 − imposto − lucro)

Imposto: pegue com seu contador a alíquota efetiva que a sua empresa paga hoje no Simples. Ela muda conforme o anexo e a faixa de faturamento — não chute, e não use a alíquota da tabela achando que é a efetiva. Lembre que dedetizadora não pode ser MEI desde 2019, então você está em ME ou EPP, com CNAE 8122-2/00 e o serviço enquadrado no item 7.13 da LC 116/2003.

Lucro: escolha. 20%, 25%, 30%. É a parte que fica na empresa pra comprar equipamento, aguentar mês fraco e crescer.

Um apartamento de 60 m², da entrada à saída

Barata e formiga, aplicação de spray com reforço em gel.

ItemCálculoValor
Produto3 L de calda + 8 g de gelR$ 26,00
Mão de obra2h15 (1h30 aplicando, 30 min de trajeto, 15 min de preparo e comprovante) × R$ 32R$ 72,00
Deslocamento16 km × R$ 1,60R$ 25,60
Retorno de garantia20% × R$ 80,60R$ 16,12
Custo fixo rateadoR$ 3.000 ÷ 40 serviçosR$ 75,00
Custo totalR$ 214,72

Com imposto de 8% (exemplo — use o seu) e lucro de 25%:

Preço = 214,72 ÷ (1 − 0,08 − 0,25) = 214,72 ÷ 0,67 = R$ 320,48. Arredonde para R$ 330.

Agora volte ao começo do texto. Você fechou por R$ 230. Tirando 8% de imposto, entraram R$ 211,60 contra R$ 214,72 de custo. Você pagou R$ 3 pra trabalhar uma manhã. E se o cliente pedir o retorno, o prejuízo real passa de R$ 80.

Não é falta de cliente. É preço abaixo do custo, repetido 40 vezes por mês.

Como transformar isso numa tabela de preços

Não refaça a conta a cada telefonema. Faça uma vez por tipo de serviço e crie faixas.

Monte assim:

  1. Calcule o preço de um serviço-padrão, como fizemos. Esse vira seu preço mínimo. No exemplo, R$ 330 para até 80 m².
  2. Para área maior, some só o que cresce: mais produto e mais tempo de aplicação. Custo fixo e deslocamento não dobram porque o imóvel dobrou. Por isso o valor por m² cai conforme a área sobe — e por isso tabela de preço por m² única, do apartamento ao galpão, sempre erra pra um dos dois lados.
  3. Serviços com regra própria ficam de fora dessa tabela. Limpeza de reservatório, por exemplo, segue a Portaria de Consolidação nº 5/2017 e tem tempo, equipe e responsabilidade diferentes. Calcule separado.
  4. Defina seu piso: custo total + imposto. Abaixo disso você não negocia, você recusa. Desconto sai do seu lucro, nunca do custo.

E quando for divulgar, cuidado com o texto do orçamento. O Art. 22 da RDC 622/2022 proíbe expressão que sugira aprovação da ANVISA. Escreva “produto registrado na ANVISA” e “empresa licenciada pela vigilância sanitária do município”. É o correto e é o que te protege numa fiscalização.

O que fazer hoje

Pegue os últimos três serviços que você fez. Para cada um, anote cinco números: produto gasto, horas totais, km rodados, se teve retorno, e quanto você cobrou. Depois some seus custos fixos do mês e divida pela quantidade de serviços.

Vai levar meia hora e você provavelmente vai descobrir que dois dos três estavam abaixo do custo. A partir daí, refaça a tabela com a fórmula acima e teste no próximo orçamento. Cliente que some por causa de R$ 80 costuma ser o que mais dá trabalho na garantia.

Depois que o preço estiver certo, o que faz diferença é não perder o resto: a nota emitida, o comprovante do Art. 19 entregue no ato e a renovação da licença lembrada antes de vencer. Se quiser isso resolvido num lugar só, o DedetiZap está com lista de espera aberta para o beta.

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